quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Amnésia.

Ela sempre teve uma péssima memória. Precisava anotar emoções, riscar calendários, ser lembrada todos os dias. Lembrada de tudo: da mágoa e do amor, das dores e das alegrias várias. No meio da noite, esquecia quem era e, ao levantar da cama, podia ser qualquer uma ou ninguém. Bastava que a convencessem.
Acreditaria de novo em qualquer um que já a tivesse machucado; amaria de novo qualquer coração errante que a tivesse decepcionado; perdoaria todo e qualquer erro no meio do caminho; sentiria todos os beijos como novidade e reservaria, mesmo pro antigo, olhos de descoberta. E nem era por bondade de coração, era só fraqueza da memória: ela precisava ser lembrada de tudo.
O dia, para ela, nasce sempre folha em branco: uma nova possibilidade, uma nova chance.
E como a folha em branco lhe despertava, de imediato, a vontade de viver, por descuido ou covardia, não se preocupava em procurar folhas outras que explicasse a vida até então. Precisava pensar no que haveria de vir. Precisava organizar as esperanças e os pensamentos positivos todos. Precisava viver e viver o que não foi vivido.
O passado passava de verdade. Não tinha tempo pra conversar com ele de novo.
A vida nova podia cansar de esperar se ela fosse pedir as dicas necessárias pra seguir em frente ou sanar todas as dúvidas que carregava em seus ombros.
Preferia arriscar-se.
Se o sol estivesse bonito, ela acharia adequado estar feliz. Se acordasse sob um céu de pesadas nuvens, acharia de bom tom chover um pouquinho.
Tinha medo de teorizar demais e perder a vida. Tinha medo de analisar demais e arruinar a magia de tudo. Não colecionava certezas, porque lhe bastava a intuição.
Do passado, só tinha o que persistia e que, por isso, tecnicamente, nem poderia ser chamado de passado. Ficava apenas com aqueles pedaços de vida irresponsáveis e hábeis que teimam em acompanhar o tempo e transpor suas barreiras.   
O resto era o que lhe contavam e o que enfeitava o mural do quarto. Importava quase nada.
Talvez sua memória nem fosse tão ruim assim. Talvez, ela tenha feito do esquecimento um hábito por ter cansado de tentar entender as águas que passavam.
Percebeu que melhor era manter a porta aberta e cantar o mundo futuro.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Um passo solitário.

Uma parte de mim grita e a outra finge não escutar: tudo é ruído de um lado e falsa quietude do outro. Uma parte de mim se atira e a outra resiste: tudo é segurança e tudo é risco. Uma parte de mim se mostra e outra se cala. Tudo de mim vira apenas um perfil de mim, um pedaço, uma fração. Acabo por ser múltipla e mutilada: escrava de uma amplitude repartida e conflitante que não desejo e não consigo sustentar. Escrava de opostos que teimam em não se anular dentro de mim. Condenada a ser desunida, divergente, separada em diferentes partes.
Partes que me puxam para lados opostos, partes que me rasgam ao meio – e ao meio do meio - me dilaceram, me transformam em sangue.
Não sou mais a que corre e não sou a que pára. Não sou mais a que entende e não sou a que explica. Sou qualquer meio termo no meio de tudo. Sou qualquer plano de luta sem execução. Sou qualquer desejo de paz perdido no sonho.
Qualquer... Qualquer paradoxo ineficaz e pouco belo. Sou qualquer coragem sem propósito e qualquer medo infundado.
Sou uma guerra inteira dentro de mim. Sou a proposta e a recusa do acordo de paz. Sou o avançar e o recuar das tropas. Sobretudo, sou a falta de entendimento e de compreensão.
Por jogar dos dois lados do tabuleiro e saber – ainda que sem saber - o movimento futuro das peças, acabo sempre por me enganar ao virar de lado. E não consigo unir os lados. Eles não se agradam. Eles se chocam e evitam o aperto de mão. Eles explodem dentro de mim e renascem mais ininteligíveis, mais incomunicáveis.
Não sei o que fazer com essas peças que não se encaixam mais. Pensei, e não houve encaixe; sonhei, e não houve encaixe. Cheguei a inventar um encaixe, mas parte de mim hesitou e tudo resultou em novo embate, em encaixe inexistente. Hoje, duvido do encaixe: um sonho de paz perdido nessa guerra sem fim.
A falta de limites e as infinitas possibilidades que as diferentes partes de mim trazem, impedem a minha identificação, o meu reconhecimento. Não sei mais em qual espelho reside a verdade do meu rosto. O reflexo verdadeiro depende do “quando”, do vencedor temporário da queda de braço interminável em que vivo.
Eu, que não me encontro mais em mim, não saberia reconhecer a minha face numa multidão. Entre os cacos que ando, me percebo indecifrável e incompreensível. Sinto-me como uma carta rasgada em infinitos pedaços e que não mais pode ser lida: a minha mensagem se perdeu.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Foi o balanço do mar.

Precisava pular apenas sete ondas, mas como elas não paravam nunca de chegar à beira mar achava de bom tom continuar pulando. Nem sempre eram pulos certeiros. Às vezes um pé lhe escapava e não lhe funcionava (da forma devida) o pulo, mas, por estar fazendo o que ultrapassava a obrigação, acreditava que tudo ficaria bem. Já que perdera o peso do dever e que o salto apenas significava seu desejo de voar sobre as águas salgadas um instante, pouco importava a perfeição do pulo.
Era isso: em verdade, nunca ligara para perfeição. Quando era algo para ela – e somente para ela – o imperfeito bastava e vestia bem. O imperfeito é confortável e condizente com o mundo, não requer explicações nem proteções exageradas: ele facilmente se adapta.
Nunca tivera traquejo para lidar com o perfeito. Suas mãos imperfeitas, seu coração defeituoso e sua mente confusa sempre seguraram melhor as coisas que possuem arestas, que facilitam a aderência. O perfeito era escorregadio demais e, por isso, quando lutava por ele, era sempre uma luta impessoal. O imperfeito era, para ela, como um dia nublado que, embora não fosse tão divertido aos olhares alheios, era, sem dúvidas, mais condizente com o seu estado de espírito. O perfeito era sempre um hóspede, algo carente de intimidade. A perfeição é uma visita, que como toda visita modifica profundamente o anfitrião. Não preferia assim (porque se preferia do jeito que é). Ademais, o que a gente faz com o que é carente de erros? Tudo já foi feito e corretamente feito. O perfeito era quase desnecessário.
Assim, quando, no pulo, um pé seu entortava, rapidamente, ela ensaiava um sorriso e apanhava o ar necessário para o próximo salto. Sempre se refez antes da próxima onda ou, pelo menos, sempre se refez o máximo que pode antes da próxima onda.
As quedas que existiram – e existiram muitas – foram levadas pela maré. As angustias e as dores, os ódios e os medos, as incertezas e covardias: tudo ia sendo, pouco a pouco, encaminhado para outros mares. E lá vinha uma nova onda, um novo começo, um novo mundo de esperanças que lhe enchia o peito. Nunca mais negaria um pulo depois que aprendeu a viver saltando (ou que viver é saltar).
Tudo que a maré levava a tornava mais leve e tudo que ela trazia lhe preenchia sem pesos. Amava a chance do recomeço e idolatrava a possibilidade. Essa possibilidade de tudo que uma nova onda sempre lhe trazia. Até a possibilidade de um pé torcido ou uma queda lhe agradava pela chance de fortalecer aqueles pontos que só a dor desperta. Temia a dor, mas a maré levava a covardia embora e lhe trazia a coragem. Olhava a onda e dizia num suspiro de olhos brilhantes: “possibilidade de tudo”. Não conseguia pensar em nada mais feliz do que ter a possibilidade de tudo. Não desejaria nada diverso, nem mesmo a exatidão dos milagres.
A beleza da possibilidade está na dúvida e na liberdade de mudar os caminhos. Pode ser que tudo naufrague, mas, ainda assim, podemos transformar todo desastre na mais linda viagem. Era a imprecisão mais honesta e bela que poderia desejar. E tendo a possibilidade de tudo nesse “indo e vindo infinito” das ondas e confiando na inteligência da maré, apenas permitia que algumas coisas fossem embora e que outras (re)aparecessem na fé do novo salto.
Chamava isso de felicidade.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Semelhante.

Não é infelicidade. Digo-te, com tranqüilidade, que meu coração sorri. Sempre sorri. A felicidade me acompanha como acompanha a você e a todos os outros: às vezes, ela some e bate aquela saudade; às vezes, ela chega com tanta intensidade que parece que nunca mais vai embora. E dá aquele medo de ser feliz. Medo de desafiar o mundo com os nossos sorrisos mais sinceros. Medo de perder essa coisa mágica que é o abraço da felicidade. Percebe? Do mesmo jeito.
Eu não sou diferente de ninguém. Sou simples e rasa da mesma forma e tenho os mesmo sonhos e pecados. Tenho os mesmos medos e as mesmas glórias. Tenho os mesmos exageros e as mesmas incertezas.
Não é infelicidade. Não sou infeliz, apenas sofro. Sofro esse sofrimento que você também sofre e conhece. Esse sofrimento que se transforma em passo novo, em novo caminho. Meu mundo continua sendo uma aquarela, com todas as cores conhecidas e com tantas outras que invento. Nada é completamente opaco, nada por aqui sobrevive no preto e branco. Não é mesmo assim?
Minha lágrima é como a sua: aparece apenas para consolar a mente inquieta e o peito incompreendido, para transformar em coragem a tristeza presa. É pura alquimia de quem, assim como você, não resiste ao desejo de ser feliz. Porque a lágrima, assim como a dor, é só anseio de felicidade.
Minha auto-suficiência e meu ar de seriedade, assim como alguma proteção criada por você, também desmoronam com um abraço, com o acerto do destino, com a beleza da retribuição. É só um muro ou outro que apenas existe pra desmoronar na hora exata.
Nunca se espante com o meu olhar perdido, com o meu silencio prolongado, com essa coisa de ser introspectiva. É só o meu jeito de reconstruir as esperanças (que carrego aos montes), organizar os sentimentos todos e partir para uma nova viagem, pois, assim como você, eu sempre tenho uma nova viagem, uma novidade quente, um encontro certo com a felicidade. Porque, por mais que ela suma, em alguns lugares terá pra sempre presença certa.
Nunca valorize demais esses desesperos que apresento de vez em quando. Eles são iguais aos seus: enquanto não somem de verdade, desaparecem no meio dos insistentes e preciosos sorrisos, dos pensamentos outros que sempre trazem uma pequena dose de felicidade. Você sabe como funciona, não é mesmo? A gente se engana um pouquinho e no meio de tudo surge uma solução, uma lucidez mais eficaz para resolver tudo.
Nunca se engane comigo. Eu não brinco com a vida: só quero uma casa pequena, um amor, um poema e a força para seguir sempre em frente.

“A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.”

(Clarice Lispector)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Romance.

Não existe romance, sem sofrimento. Não existe amor que não traga consigo marcas indeléveis, que não deixe uma cicatriz que acabará por lembrar a ferida aberta que é amar alguém. Porque amar dói. Amar dói e não tem jeito. Não tem saída (exceto a procura incansável por saídas que talvez nem existam).
Mostre-me um amor sem lágrimas e serei obrigado a dizer que você não amou. Serei obrigado a retirar o véu, a arrancar a máscara do sentimento que pode ser tudo, menos amor.
Talvez, seja paixão. A paixão que faz doer o peito, mas que não é tão paciente quanto o amor. Paixão que não dura mais que três anos, se não forem renovados os votos e o vinho do amor de Tristão e Isolda. A paixão que é linda dança dos corpos, mas movimento tímido dos corações ansiosos.
Talvez, seja mentira – e por mentira muito se sofre. A mentira que tem o seu valor (como igualmente o tem o beijo de um amante), mas que será sempre incapaz de sustentar, por tempo bastante, a crença inocente. A mentira que, de modo cruel, apenas não acontece de verdade.
Tudo, menos amor.
Não existe amor sem aflição. É a vontade de cuidar e o medo de perder. É o desejo de sentir e o temor de vivenciar. É a certeza do perdão e, ainda assim, o receio de errar. Porque não se deseja errar com o amor. No entanto, mostre-me um amor sedento de erro, que também desse sentimento haverá de cair um adorno e, por fim, uma máscara inteira.
Talvez, seja brincadeira – e nem preciso dizer que com isso também se brinca. Brincadeira de quem acredita que nada daquilo pode ser sério demais ou tão verdadeiro assim. Brincadeira que engana, sem querer, os olhos de quem ama do lado oposto.
E seriam opostos os lados, também no amor?
Talvez, seja jogo. Seja uma sorte lançada ao destino, um cruzar de dedos e um brinde no fim. Jogo em que existe ou não um vencedor, em que há ou não alguma diversão. Certeza apenas de que não há o amor. E de que é um tolo aquele que pensa que o amor surgirá assim.
Bobo aquele que faz do amor um jogo; louco quem faz dele uma mentira; pretensioso demais aquele que o enxerga na paixão; infantil demais quem acredita poder brincar com isso e sonhador (num nível que não se concebe) aquele que “se recusa a admitir que amar é sofrer”.
O amor nasce quando não vemos, quando não prestamos atenção. Vem “sei lá de onde” e vai embora “sabe-se lá quando” ou, simplesmente, fica. O amor não quer ou não precisa ser decifrado. Ele só devora você. Devora, completamente, você.
Amor alarga a mente e os sentidos todos. Respiro mais, porque amo. Penso mais, porque amo. Sonho mais, porque amo. Sofro mais, porque amo. E amo, porque amo. E escolho amar. Porque, sem explicações, temos, todos, um coração que escolhe amar.
Não existe amor sem escolha, sem que você eleja em quais ombros, além dos seus próprios, haverá de ser depositada a sua verdade. E não há escolha, sem perda. E não há perda, sem dor.
Mas o amor é o sofrimento com todo o resto, com toda a imensidão que ele te oferece depois da dor. E o romance vale a lágrima que seca ao vento do tempo. E o amor merece o braço forte da luta. E a vida merece a morte de amor, incontáveis vezes – e nós merecemos viver apenas esses.

“Quem não morre do seu amor dele não merece viver”

“Se for pra sofrer que seja por uma mentira: acaba mais rápido”

"É só uma história. Ninguém morre por causa disso."

(Romance)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Por isso.

São os detalhes, são sempre os detalhes que desencadeiam tudo. É aquele olhar displicente, aquele riso despretensioso que te faz amar alguém com uma força antes nunca vista. Aquele pêlo ruivo isolado na barba escura dele é que faz aquele homem ser incomparável aos outros. É o jeito de ela dizer que não gosta de fotos e de ignorar por completo seus pedidos insistentes que faz com que você treine cada vez mais a sua memória para capturar cada momento inédito da beleza que pertence a mulher que você escolheu e sempre escolhe amar.
É aquele velho truque que ele usa de comprar cartões que já trazem textos imensos sempre encontrando um lugarzinho pra escrever o essencial, que te faz agradecer o universo por ter cruzado a vida de vocês dois. É aquele pressentimento certeiro que ela tem de te ligar quando você mais precisa, de te fazer um cafuné quando você mais deseja, que faz com que você sinta vontade de protegê-la de tudo e o medo imenso de perdê-la por qualquer deslize.
É aquele jeito que ela tem de te dar ordens com uma voz macia e um olhar agradecido que faz com que você sonhe realizar mil vezes cada uma de suas determinações. É a capacidade que ele tem de escolher a música certa pra tocar no carro quando o trânsito se torna impossível e a delicadeza de alargar um movimento simples para transformá-lo em um carinho inesperado, que faz com que você se convença que outro caminho não poderia conter a sua felicidade.
É que o mundo só fez sentido quando você viu, naquele domingo muito pouco promissor, o sol da tarde iluminar a menina mais linda na fila do Banco. É que a vida só pareceu realmente boa quando ele te disse, num misto de nervoso e alívio, que te amava profundamente. É que a felicidade somente pareceu possível quando as duas mãos se encontraram e nunca mais puderam se separar.
Todas as músicas e todas as poesias só puderam ser traduzidas porque existiu aquele abraço, porque ele – e somente ele – teve a coragem de entregar aquele bilhete na saída do colégio. Todos os poetas e todos os filmes só puderam ser entendidos por que ela – e somente ela – deixou aquele cheiro no travesseiro novo do seu quarto.
Aquela alma sua, diferente de todas as outras, não poderia ser apresentada a outro coração que não o dele. Só ele entende o seu amor pelo tédio e sente com você o cheiro de sábado. Só ele balança o pé direito até o sono chegar.
Aquele segredo que era você, não poderia ser dividido com ninguém mais senão com ela. Só ela acha “merenda” a palavra mais linda do dicionário. Só ela entende o seu jeito de parar o mundo enquanto assiste a um filme. Só ela ouve com atenção as suas teorias mais malucas sobre o amor.
Não poderia ser ninguém mais. Para ninguém mais haveria de ser tocada aquela canção; com ninguém mais haveria de ser dividida aquela palavra. Afinal de contas, só você corta a casca do pão pra fazer um sanduíche de atum.

Dan - Por que eu? Poderia ter qualquer um. Por que eu?
Alice - Porque você corta a casca do pão.
(risos)
Alice - E por isso.

domingo, 22 de novembro de 2009

Para quem me odeia.

O tempo inteiro você se protegeu apenas de você mesma. Você sempre foi seu inimigo, seu algoz, o alvo que tanto procurou em mim. Você sempre trouxe as características que mais detestava e acabou por realizar tudo aquilo que julgava repugnante. Você se tornou o outro lado. O lado que sempre contestou, que sempre acreditou nunca visitar.
Você se transformou no monstro que sempre acreditou fugir. Você agora é tão pouco, tão rasa, tão pobre de tudo.
Como tua prepotência te permitiu errar tanto? Como tua insaciável vontade de perfeição te permitiu ser tão torta assim?
Seus ideais foram todos feridos. Sequer sobrou uma virtude sem mágoa.
Todas as suas palavras resultaram em mentira desnecessária, em discurso que impressiona, mas não sustenta realidade alguma.
Provavelmente, você ainda enxerga uma cara limpa no espelho, e isso porque nunca conseguiria abandonar a louca certeza de quem se acha sempre correto. Ter a pureza da dúvida não faz teu gênero, nunca fez.
Hoje penso com alívio no desconforto que provoco em você. Se não fosse difícil, para alguém como você, conviver comigo, provavelmente, eu não estaria me expressando do jeito correto.
Quantas maldades e quantas farpas você ainda haverá de distribuir por aí e quantas delas não tentarão me atingir de novo e de novo e de novo. É uma pena que você não saiba que já derramei todo o sangue que haveria de derramar por você. Não resta uma gota sequer.
Tudo que foi derramado, no entanto, não é um problema. Tudo o que foi derramado, inevitavelmente, teria que ser derramado, caso contrário, eu seguiria meu caminho insegura, imaginando que o erro residia em mim e o erro nunca residiu em mim. Ele sempre estava ali, do seu lado (você estava certa nesse ponto), mas ele nunca respondeu pelo meu nome.
Sempre foi você quem desejava o oposto do que anunciava. Sempre foi você quem arquitetava situações propícias para ser cruel. Sempre foi você quem trazia no rosto uma pesada máscara errante.
Era você quem tinha inveja, era você quem nutria o ódio, era você quem, por medo de sangrar, derramava sangue alheio, sem culpa ou ressentimentos.
Não, não é à toa que você se incomode tanto com quem eu sou. Eu sou quem você pensa que é – e não é. A cara limpa é a minha. A sinceridade e a transparência cabem ao meu coração. O trabalho para ser simples é exercido por minha alma – sempre e de novo. Você é só o avesso do avesso do avesso. Você é só alguém que se perdeu na demagogia infinita de tentar demonstrar ser quem não nunca foi.
Você é só. Você é pouco.
O que dói em mim? O peso das escolhas feitas, afinal, “quanto maior as escolhas, maiores as perdas”. Apenas, dói em mim o tempo que escolhi passar com você ou com quem você parecia ser.
O bom é que a vida segue e que surpresas boas haverão de vir para ofuscar todos os péssimos acontecimentos. O bom é saber que infinitas novas escolhas ainda haverão de ser feitas. O melhor é ter a certeza de que não mudarei em mim os detalhes que você mais odeia pelo simples motivo de serem eles as qualidades mais lindas que devemos cultivar, mas você não entende. Você nunca entende, nem nunca entenderá.