Ela sempre teve uma péssima memória. Precisava anotar emoções, riscar calendários, ser lembrada todos os dias. Lembrada de tudo: da mágoa e do amor, das dores e das alegrias várias. No meio da noite, esquecia quem era e, ao levantar da cama, podia ser qualquer uma ou ninguém. Bastava que a convencessem.
Acreditaria de novo em qualquer um que já a tivesse machucado; amaria de novo qualquer coração errante que a tivesse decepcionado; perdoaria todo e qualquer erro no meio do caminho; sentiria todos os beijos como novidade e reservaria, mesmo pro antigo, olhos de descoberta. E nem era por bondade de coração, era só fraqueza da memória: ela precisava ser lembrada de tudo.
O dia, para ela, nasce sempre folha em branco: uma nova possibilidade, uma nova chance.
E como a folha em branco lhe despertava, de imediato, a vontade de viver, por descuido ou covardia, não se preocupava em procurar folhas outras que explicasse a vida até então. Precisava pensar no que haveria de vir. Precisava organizar as esperanças e os pensamentos positivos todos. Precisava viver e viver o que não foi vivido.
O passado passava de verdade. Não tinha tempo pra conversar com ele de novo.
A vida nova podia cansar de esperar se ela fosse pedir as dicas necessárias pra seguir em frente ou sanar todas as dúvidas que carregava em seus ombros.
Preferia arriscar-se.
Se o sol estivesse bonito, ela acharia adequado estar feliz. Se acordasse sob um céu de pesadas nuvens, acharia de bom tom chover um pouquinho.
Tinha medo de teorizar demais e perder a vida. Tinha medo de analisar demais e arruinar a magia de tudo. Não colecionava certezas, porque lhe bastava a intuição.
Do passado, só tinha o que persistia e que, por isso, tecnicamente, nem poderia ser chamado de passado. Ficava apenas com aqueles pedaços de vida irresponsáveis e hábeis que teimam em acompanhar o tempo e transpor suas barreiras.
O resto era o que lhe contavam e o que enfeitava o mural do quarto. Importava quase nada.
Talvez sua memória nem fosse tão ruim assim. Talvez, ela tenha feito do esquecimento um hábito por ter cansado de tentar entender as águas que passavam.
Percebeu que melhor era manter a porta aberta e cantar o mundo futuro.